Vinil ganha impulso com nova fábrica

Felipe Tringoni, especial para - O Estado de S.Paulo

27/06/2018 | 05h00   

Segunda fabricante de discos do País iniciou atuação com prensas encontradas em ferro velho; lojista prevê mercado aquecido

Michel Nath, fundador da Vinil Brasil, encontrou as prensas da fábrica em um ferro velho. Foto: Felipe Rau/Estadão

Michel Nath, fundador da Vinil Brasil, encontrou as prensas da fábrica em um ferro velho. Foto: Felipe Rau/Estadão Foto: Felipe Rau/Estadão

A retomada do disco de vinil vive um novo capítulo em terras brasileiras. Se em mercados como Estados Unidos e Europa ela já é uma realidade há pelo menos uma década, no Brasil os raros números da Polysom – até o ano passado a única fabricante de discos da América Latina – ainda são tímidos, embora crescentes. Nesse contexto, a chegada da segunda fábrica do País, a Vinil Brasil, é festejada por um mercado de nicho com alto potencial de expansão, segundo lojistas e os próprios fabricantes.

De acordo com matéria da revista The Economist, o vinil chegou a representar 76% das vendas da indústria fonográfica mundial em 1973. Na década de 1990, com a ascensão dos CDs, sua participação se reduziu a 1,5%. Naquela altura, parte das fábricas fechava as portas e descartava suas prensas. 

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Em 2014, o paulistano Michel Nath, hoje com 41 anos, encontrou quatro dessas máquinas em um ferro velho. “Tivemos de tirar a indústria de fabricação de vinil de um coma. As fábricas foram desmontadas e o maquinário é de 1954. É como reformar um super Cadillac.”

Se já é difícil estabelecer uma fábrica de vinil em mercados consolidados, no Brasil a tarefa beira o heroísmo. “É tudo muito mais caro, não se encontra fornecedores e mão de obra qualificada”, diz o empresário, que hoje gere 15 funcionários em seu galpão na Barra Funda – um misto de especialistas da velha guarda, técnicos industriais e profissionais em formação. 

“A Vinil Brasil partiu da fabricação para também construir tecnologia e evoluir. Porque não há quem faça”, afirma Nath, que cita o desenvolvimento interno de peças como moldes para as máquinas.

Os anos de amadurecimento coincidem com o período de crise econômica aguda no País. “É muito trabalhoso se expandir dentro de uma realidade industrial decadente.” O empreendedor não revela o investimento inicial no negócio. Sua principal meta é conseguir fechar as contas, o que envolve diretamente aumento de produção. Hoje, a fábrica opera com duas prensas ativas e produz cerca de 7 mil discos por mês. Para o segundo semestre, com uma terceira máquina, a previsão é chegar a 11 mil.

Cenário. Mas há demanda para cerca de 130 mil discos novos ao ano? Segundo Nath, há busca reprimida por falta de produção e particularidades econômicas. “Estamos a pleno vapor e a tendência é crescer a fila. A Vinil Brasil nasceu no contexto em que a procura por discos de vinil é crescente e novas fábricas estão aparecendo por todo o mundo.”

Gilberto Custódio, sócio da Locomotiva Discos – que trabalha com novos e usados em loja na República e com vendas online – corrobora. “Mais discos no mercado é fundamental para retomar o crescimento e não depender dos importados. O que falta agora são as gravadoras abraçarem a ideia e lançarem não só música brasileira, mas também artistas que vendem lá fora. E isso já começou.” E cita a recente edição nacional do último LP da banda inglesa Arctic Monkeys pela Polysom. “Com mais uma fábrica, a tendência é que isso ocorra mais. Esse disco chega por uma média de R$ 60 a unidade e vai ser vendido a R$ 95. O importado seria vendido por cerca de R$ 150.”

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Com investimento inicial de R$ 60 mil e faturamento médio de R$ 90 mil ao mês, a Locomotiva é uma das grandes responsáveis pelo reaquecimento do mercado de discos em São Paulo. Segundo Custódio, desde a abertura em 2011 até meados de 2016, a loja “cresceu sem parar”. Ele atribui a estagnação dos últimos dois anos a fatores como a crise econômica, oscilações do dólar e a concorrência crescente, mas prevê melhora. “Com a fábrica e o País se estabilizando, a tendência é voltar a crescer.”

No Brasil e fora, demanda segue em expansão. Pelo 12º ano seguido, as vendas de vinil bateram recorde nos Estados Unidos, segundo a consultoria Nielsen. O formato ultrapassou 14 milhões de unidades comercializadas em 2017 (crescimento de 9% em relação a 2016), o que representa 8,5% do total de vendas de álbuns (físicos ou digitais) e 14% apenas de suportes físicos. O maior sucesso foi da reprensagem de ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band’, dos Beatles.

Não há dados dessa linha no Brasil. Números da Polysom – até 2017 a única fábrica do país – seguem a tendência mundial, impulsionados pela série de relançamentos de música brasileira Clássicos em Vinil. O destaque é ‘A Tábua de Esmeralda’, de Jorge Ben Jor. Segundo o proprietário João Augusto, a fábrica ampliou a produção em 269% entre 2011 e 2017 e o aumento de vendas às lojas foi de 38% entre 2015 e 2017.