Um selo que pode abrir portas no exterior

Eliane Sobral, especial para - O Estado de S.Paulo

29/08/2018 | 05h06    

Certificação de origem identifica a procedência e a qualidade de produtos locais e aumenta suas chances de exportação

Selo de indicação de origem ou geográfica pode ser adquirido por pequenos produtores de queijos, embutidos, café e até peixes Foto: Felipe Rau/Estadão 

Selo de indicação de origem ou geográfica pode ser adquirido por pequenos produtores de queijos, embutidos, café e até peixes Foto: Felipe Rau/Estadão  Foto: Felipe Rau/Estadão

A linguiça é típica de Bragança Paulista (SP), a cachaça vem de Paraty (RJ) e o queijo da Serra da Canastra (MG). Aos poucos, pequenos produtores e o próprio consumidor brasileiro começam a valorizar e a buscar a indicação geográfica de produtos típicos de uma determinada região. A tipicidade pode estar ligada a um processo específico de fabricação, ou à características do solo ou da água, entre outros aspectos. 

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Na ponta do lápis, ter essa informação na embalagem pode alavancar as vendas em até 30%, se o destino for o mercado externo. “A indicação geográfica é um selo reconhecido internacionalmente, o que acaba tornando possível a exportação”, afirma o consultor de agronegócios do Sebrae de SP, André Ricardo Cardoso. 

E é pensando no incremento das vendas e também na proteção do produto típico local que a Associação dos Produtores de Linguiça de Bragança Paulista (SP) está dando os primeiros passos em busca da certificação do embutido que faz a fama da cidade. “A certificação (de origem) abre portas para a obtenção de outros selos, que nos permitirão vender nas cidades vizinhas e até para outros estados”, afirma Renato Leite, um dos empresários à frente da associação bragantina e que atualmente produz cerca de cinco toneladas de linguiça por mês. 

Maturação. Mas certificar um produto é um processo detalhista e demorado. “A documentação é extensa e pode custar entre R$ 5 mil a R$ 10 mil”, afirma Cardoso. O ideal, diz ele, é que as prefeituras se mobilizem junto com os empresários, pois ter uma certificação dessas também significa atrair turistas para a região produtora. 

Na cidade de Bragança Paulista, por exemplo, há nove anos foi criado o festival da linguiça e, só em 2017, a cidade recebeu mais de 40 mil visitantes. 

Empenhado em resgatar o sabor que marcou sua infância, o sociólogo Fernando Oliveira foi pesquisar porque era tão difícil encontrar os queijos produzidos na Serra da Canastra. “A cultura queijeira foi se perdendo e o queijo ficou restrito aos locais de produção.” 

O resgate da memória virou negócio há dez anos quando Oliveira passou a vender queijos de todo o Brasil pela internet. Há cinco anos ele abriu a primeira loja física em São Paulo, A Queijaria, e dos cerca de 400 tipos de queijo que comercializa de 13 diferentes regiões brasileiras, apenas dois têm certificação com indicação geográfica. 

Oliveira acredita que esta realidade vai mudar. “O consumo está estagnado no mundo e em crescimento no Brasil. Dentro de 10 ou 15 anos este mercado terá grande importância aqui e o mundo está de olho”, diz. Mas não é só na certificação do queijo que o País poderia melhorar. Hoje, quem faz esse controle é o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI) e o processo pode demorar anos para ser finalizado. 

Segundo André Cardoso, do Sebrae de SP, embora a certificação geográfica exista desde 1996 no Brasil, existem só 53 regiões com certificação de origem. Nestes locais, apenas 44 produtos têm selo de indicação de procedência e somente nove têm selo com denominação de origem. “É muito pouco, dada a diversidade no nosso País”, avalia o consultor.