Tecnologia esportiva: empresa prospera contando batimento cardíaco e quilômetros

Alessandro Lucchetti - Especial para o Estadão

06/06/2017 | 07h12    

Trabalhando com internet das coisas, big data e computação nas nuvens, a One Sports funde dados numa única plataforma. Nove clubes da Série A do Brasileirão e as seleções de vôlei valem-se da tecnologia 100% sorocabana

O atacante Erik mostra onde se localiza o aparelho de GPs utilizado para monitoramento de dados analisados pela comissão técnica do Palmeiras. Esse tipo de serviço é oferecido pela empresa brasileira One Sports e por gigantes como a australiana Catapult

O atacante Erik mostra onde se localiza o aparelho de GPs utilizado para monitoramento de dados analisados pela comissão técnica do Palmeiras. Esse tipo de serviço é oferecido pela empresa brasileira One Sports e por gigantes como a australiana Catapult Foto: JF Diorio/Estadão

Um jogador de vôlei frustrado, um atleta de futsal que nunca foi além da seleção sorocabana e um praticante de musculação que não se frustrou, mas tampouco projetara grandes glórias esportivas. Esse trio de sócios soma esforços na One Sports, empresa que vem colecionando bons resultados financeiros, uma competição que faz muito mais sentido para tanta gente.

Desde sua fundação, em 2012, a organização, que conjuga internet das coisas, big data e computação na nuvem, tem crescido de 20% a 30% a cada ano, segundo Paulo Camargo, sócio que trocou levantadas e manchetes dos treinos do Objetivo Sorocaba pelo setor de inovação e negócios da empresa.

Hoje, 2 mil atletas de alta performance, profissionais e amadores, treinam monitorados por alguma das engenhocas da One Sports no Brasil. Quase 150 clubes e instituições, incluindo-se aí nove que disputam a Série A do Campeonato Brasileiro, contrataram o serviço. O Rexona, time feminino de vôlei, e a própria Confederação Brasileira de Vôlei, a CBV, colhem, com a ajuda da One Sports, dados que norteiam o trabalho de preparação física dos atletas, como a altura dos saltos dos atacantes.

Quem acompanha futebol já deve ter visto que, ao tirar a camisa após o fim do jogo, os atletas  revelam a presença de uma espécie de sutiã masculino. Nessa peça têxtil são carregados aparelhos como o frequencímetro, que monitora as funções cardíacas, e o acelerômetro com GPS.

"Imaginemos um jogador de futebol que costuma correr 100m a cada minuto de partida. Se ele estiver correndo muito abaixo disso, pode estar com alguma lesão que talvez esteja ocultando para não perder lugar no time, por exemplo. Ou então estar muito cansado, o que pode indicar necessidade de substituição. Por outro lado, se esse atleta estiver correndo perto de 200m a cada minuto, isso pode significar que a equipe esteja desorganizada taticamente, o que aponta um subsídio de outra ordem a ser levado em conta pela comissão técnica", relata Camargo.

O chamado "migué", aplicado por jogadores boêmios, que se arrastavam em campo tempos atrás, já não passa despercebido com os aparatos à disposição hoje.

A parceria com a CBV nitidamente orgulha Camargo. "Temos o melhor vôlei do mundo e podemos desenvolver para ele a melhor tecnologia do mundo", diz o empresário, algo incomodado com a preferência da CBF pela Catapult, empresa australiana que domina o mercado internacional na esfera da tecnologia esportiva. "Acho que a CBF poderia ser um pouquinho mais nacionalista e apostar numa empresa brasileira", desabafa. 

Os três sócios da One Sports: Paulo Camargo, ex-jogador de vôlei e diretor de inovação e negócios da empresa; Alexandre Álvaro, ex-jogador de futsal e especializado em ciência da computação e Fernando Endo, responsável pelo hardware

Os três sócios da One Sports: Paulo Camargo, ex-jogador de vôlei e diretor de inovação e negócios da empresa; Alexandre Álvaro, ex-jogador de futsal e especializado em ciência da computação e Fernando Endo, responsável pelo hardware Foto: Mário Chaves/One Sports

O Palmeiras, por exemplo, é cliente da Catapult, mas também contrata os serviços da One Sports. "Temos o objetivo de perceber as deficiências e lacunas deixadas pela Catapult e, em contato com os fisiologistas e preparadores físicos do Palmeiras, procurar desenvolver soluções para o clube. Temos a proximidade a nosso favor."

Além de captar R$ 2,4 milhões graças a dois projetos de pesquisa aprovados pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), a empresa, criada no Parque Tecnológico de Sorocaba, vale-se do bootstrap, abordagem de crescimento que consiste em não recorrer a investidores externos, capitalizando-se a partir do desenvolvimento de soluções específicas, pedidas pelos clientes. Com crescimento orientado por essa estratégia, a One Sports foi reconhecida pelo TPG Sports Group, que a selecionou entre os 10 finalistas entre empresas de tecnologia esportiva na terceira edição do Sports Tank, que teve lugar em Nova York, no último mês de abril. Candidataram-se 275 empresas do mundo para essa versão esportiva do game show Shark Tank.

De olho na MLS. Ascender a esse nível significa a possibilidade de contato com empresas que investem em tecnologia esportiva, como a Gatorade, e com clientes como o Orlando City, que participa da Major League Soccer, principal competição norte-americana de futebol. Por esse clube da Flórida, que tem como acionista majoritário o brasileiro Flávio Augusto da Silva, atua Kaká. 

Além de nutrir grandes ambições, a One Sports não descuida de um mercado interessante, o dos corredores amadores que pretendem elevar o nível e se dispõem a investir nisso. É crescente a quantidade de empresários e outos brasileiros bem-sucedidos que viajam para correr maratonas em Nova York, Berlim, Londres ou Chicago. "Não seria interessante vendermos os planos ao consumidor final, o corredor, que não teria conhecimento para analisar os dados. Mas conversamos com assessorias esportivas e com personal trainers", diz Camargo. "Nossa tecnologia é relativamente acessível. Queremos popularizá-la."

A colheita de dados cardíacos pode, é claro, contribuir para salvar vidas. "Os dados que oferecemos servem de subsídios para os médicos dos clubes, que são muito mais ouvidos hoje", diz Camargo, que aponta o monitoramento de concussões cerebrais, provocadas por choques de cabeça, como outro expressivo serviço prestado por empresas como a One Sports.

"O investimento do segmento esportivo em tecnologia é uma tendência incontornável. No alto nível, a disputa está muito parelha e cada minúscula melhora, que pode ser alcançada com o estudo de dados, é importante."