Por que as mulheres não se sentem empreendedoras

Claire Cain Miller/The New York Times - O Estado de S.Paulo

14/06/2017 | 16h15    

Somente 35% das mulheres americanas, apesar de constituírem quase a metade da mão de obra dos EUA, são proprietárias de empresas. E metade delas não tem empregados

Jennifer Dionisio com suas três filhas, Erin, Regan e Ally (das esquerda para a direita) na fazenda da família

Jennifer Dionisio com suas três filhas, Erin, Regan e Ally (das esquerda para a direita) na fazenda da família Foto: Matt Nager/The New York Times

Para muitos americanos ter sua própria empresa é uma manifestação do sonho americano: assumir riscos, trabalhar duro, enriquecer. Então por que não há mais mulheres com tais ambições?

Somente 35% das mulheres, apesar de constituírem quase a metade da mão de obra do país, são proprietárias de empresas. E metade delas não tem  empregados, arcando com todo o trabalho e no geral ganham menos, de acordo com dados de censo analisados pelo grupo Third Way. No setor de tecnologia, de acordo com outro estudo, realizado por pesquisadores de Harvard, menos de 10% das startups têm como proprietária uma mulher.

A razão, segundo a pesquisa: pessoas com experiência orientam e financiam pessoas experientes como elas, ao passo que as iniciantes fazem o que vêem que pessoas como elas estão fazendo. Em outras palavras, vivemos todos em bolhas e isto molda as ideias que formamos. Os cientistas sociais chamam  esse fenômeno de homofilia (tendência das pessoas a se relacionarem com pessoas que se assemelham a elas próprias).

“As mulheres estão fora dessas redes estabelecidas e se você está fora não obtém o conhecimento e nem tem acesso às oportunidades, a contatos e nem a financiamento”, disse Susan Coleman, professora da universidade de Hartford e coautora do estudo do grupo Third Way.

Pesquisas mostram que, em todo o mundo, as mulheres são menos propensas a ver no empreendedorismo uma carreira, em grande parte porque não enxergam outras mulheres como exemplo de empreendedor. E também não têm a experiência de administração para fundar uma companhia. Somente 19% dos executivos sênior são mulheres, segundo estudo da LeanIn.org e McKinsey. A principal razão de elas não ascenderem é que têm menos probabilidade de encontrar mentores na alta liderança.

Isso muda quando mulheres dirigem uma empresa. A diferença de salário diminui e as mulheres são mais promovidas, segundo pesquisa de empresas realizada por Linda Bell economista e diretora do Barnard College. “Seja por causa ou efeito, a presença de uma executiva no alto escalão tem um forte impacto”, disse ela.

As mulheres também têm dificuldade para chegar às redes de financiamento, que os homens acessam por meio de indicações de amigos. Elas costumam investir seu próprio dinheiro em vez de usar capital externo e quando buscam um investidor sempre pedem menos.

Existe outro fator. As mulheres no geral são mais avessas a risco do que os homens. São melhores investidoras no longo prazo, segundo os estudos. E isso as desencoraja de assumir ume empresa ou administrar uma companhia com forte crescimento. Em alguns casos esta pode ser uma decisão de investimento sensata quando consideramos que 50% das empresas novas acabaram falindo dentro de cinco anos.

Jennifer Dionisio disse que não teve um modelo feminino quando abriu sua empresa, a Three Sisters Farm and Dairy, no ano passado. Ela vende leite e carne de ovelha e pretende abrir uma loja de queijos e um restaurante com produtos da fazenda para a mesa.

Viver em uma pequena cidade como Pueblo, no Colorado, facilita as coisas, segundo ela, já que conhece tanto os advogados como os banqueiros locais. “Ficaria apreensiva se fosse o contrário”, disse ela. Mesmo assim, as pessoas  acham que ela não consegue encher sacos de ração ou dirigir um trator, e outros chegam à sua fazenda e perguntam pelo seu patrão.

Jennifer disse que quer ser um exemplo para as três filhas e espera que elas um dia assumam a fazenda. “Daí poderão trabalhar por conta própria e ganhar sua vida. Até minha filha de sete anos já consegue dirigir um trator”.

E o Vale do Silício é uma bolha, mais do que no resto do país,  em termos de pequenos negócios.

Os fundadores de startups financiados por investidores de risco são quase todos homens,  brancos ou asiáticos, segundo um estudo de Paul Gompers, professor em Harvard e a estudante de pós-graduação Sophie Wang.

Em seu estudo, eles concluíram que existem muitas mulheres qualificadas. Entre 40% e 50% dos formados em ciências e engenharia são mulheres e na indústria de software elas constituem 30% da mão de obra. Mas têm menos probabilidade de obter informações sobre como se tornar uma empreendedora, encontrar exemplos de mulheres no campo e conhecer investidores de risco.

Investidores de risco do sexo feminino costumam  investir em empresas de mulheres, segundo o estudo. Mas 91% dos capitalistas que investem são homens, 86% são brancos e 11% asiáticos.

O histórico desses empreendedores financiados por capital de risco é mais ou menos o mesmo. Cerca de 91% são homens, 80% são brancos e 16% asiáticos. Muitos são diplomados em universidades similares e trabalharam em grandes empresas de tecnologia como Google e Microsoft.

“Quando  você tem cinco homens brancos que frequentaram a mesma universidade de economia e trabalharam nas mesmas empresas, existe o problema da sobreposição das suas redes de financiamento, de maneira que o fluxo de investimentos em empresas não é muito amplo”, disse Gompers.