O casamento fracassou, a empresa prosperou

Daphne Merkin / The New York Times - San Rafael, Califórnia

17/01/2018 | 14h10   

Relacionamento de casal continuou a florescer após o divórcio, em 2007, e a EO Products decolou

O casal fundador da EO Products, Susan Griffin e Brad Black, no interior da fábrica em San Rafael, na Califórnia

O casal fundador da EO Products, Susan Griffin e Brad Black, no interior da fábrica em San Rafael, na Califórnia Foto: Christie Hemm Klok/The New York Times

É um dia luminoso e estou de pé em um espaço de quase 4.200 m² em Marin County, na Califórnia, onde antes foi o estúdio de Star Wars, de George Lucas. Agora é a sede da EO Products. É difícil imaginar um estúdio de cinema de alta tecnologia sendo convertido na instalação de produção de uma empresa de cosméticos orgânicos, que possui produtos como sabão de hortelã e coco e xampus e condicionadores sem sulfato. É algo no mínimo improvável de ser visto. E também há algo de improvável a respeito da EO Products, a começar pelas suas origens caseiras e a maneira como, mais de duas décadas depois, a empresa é dirigida por Brad Black e Susan Griffin-Black, o casal que a preside.

O casal se encontrou em 1989, quando trocou cartões de visita - ela trabalhava nos escritórios dos EUA da Neal's Yard Remedies, uma empresa britânica de produtos orgânicos para a pele; ele era estilista e fabricava roupas de algodão orgânico - e foram almoçar. Ambos estavam em uma série de relações intermitentes nesse período; Susan divorciara-se recentemente, com um filho jovem. Os dois logo ficaram amigos, mas levou alguns anos até começarem a namorar.

Em 1995, casaram-se e criaram a EO Products na garagem no bairro de Potrero Hill, em San Francisco. (EO é uma referência a essential oils, óleos essenciais, encontrados nas sementes, cascas, hastes, raízes, flores e outras partes das plantas). Na tradição estabelecida pelos empresários hippies e com base no interesse da Griffin-Black por aromaterapia, criaram uma coleção de quatro misturas de óleos essenciais (“Relax”, “Refresh”, “Love” e “Calm”) para o guia de presentes de fim de ano da Bloomingdale's, onde Susan tinha alguns contatos profissionais, de seu negócio anterior de boutique de roupas.

Seus instintos - e o sucesso inesperado daquelas misturas de óleo – mostraram a eles que havia um mercado que ninguém estava explorando completamente. “Não procuramos mais ninguém”, disse Susan Griffin-Black. “Nós só sabíamos quais os ingredientes que não queríamos usar. Minha própria experiência abriu o caminho para o mercado.”

Os Black finalmente transferiram o espaço de trabalho de sua garagem e compraram a HFI Labs, um fabricante de marca própria com o equipamento e o know-how tecnológico para capacitá-los a expandir sua linha de produtos. “Nós sempre fomos pequenos demais, ou não tínhamos dinheiro suficiente para fazer parceria com outros fabricantes e impulsionar a inovação”, diz Black. “Não fsmos filhotes dos trust funds.”

Estiveram casados ​​por 11 anos; nesse período, passaram de trabalhar sozinhos a contratar 35 funcionários ­-- hoje têm 121. Têm um filho, Mark, do casamento anterior de Susan, que agora está em uma banda de rock, e uma filha, Lucy, que nasceu em 1996. O casal compartilha uma perspicácia profissional mútua - com Griffin-Black, de 62 anos, sendo bem do tipo maternal e Black, de 55 anos, aquele que mantém um controle rígido, tipo “Shark Tank”, sobre as coisas, assim como uma série de excentricidades pessoais.

Aqui é que as coisas ficam interessantes. Pelo seguinte: o relacionamento do casal continuou a florescer após o divórcio em 2007: como co-principais executivos, continuaram a passar todos os dias na presença um do outro, fazendo todas as coisas com as quais os casais ​​se comprometem: cuidar dos filhos, dividir finanças, comunicando-se de forma significativa, confessando, perdoando, mesmo ocasionalmente se tocando. Além disso, e aqui está a parte realmente curiosa, a EO Products decolou de maneiras inesperadas.

Considerando que a linha usual da história sugeriria que um divórcio em tal situação traria um desastre profissional - Michael Funk diz que, nos seus 40 e poucos anos, raramente viu isso funcionar – a EO não só sobreviveu à separação dos Black como ganhou impulso. Funk é o  ex-principal executivo da United Natural Foods, que está entre os maiores distribuidores de produtos naturais e orgânicos do mundo, conheceu o casal desde o início de seu relacionamento - eles se encontraram ao tomar um copo de vinho no Friar Tuck's em Nevada City, Califórnia

Atualmente, a EO Products é uma das últimas grandes empresas de produtos orgânicos de beleza de propriedade independente. A maioria das marcas com nomes atraentes, como Kiss My Face, Burt's Bees e Jason Organics, são de propriedade de gigantescas corporações. “Eles ajudaram a definir uma categoria de produtos para o corpo que pode ser definida como ultra premium”, diz Funk. "São uma marca líder em seu espaço e os dois parecem formar uma equipe saudável de gerenciamento. É muito impressionante testemunhar isso ao longo dos anos."

Cinco anos atrás, os Black lançaram a Everyone, uma linha para mercado de massa. A ideia veio de seu filho Mark, que queria uma opção mais econômica para ele e seus colegas de banda. (Os produtos de marca da EO variam de US$ 1,99 a US$ 124,99.) A Everyone tem 75 produtos, alguns em galão (quase 4 litros), variando de US$ 6,99 a US$ 11,99; incorporam uma porcentagem menor de óleos essenciais puros e são vendidos principalmente na Target.

A questão dos óleos essenciais tornou-se muito destacada, com um artigo recente no New Yorker detalhando as extravagantes reivindicações feitas a respeito de suas propriedades curativas. A matéria focou-se em duas empresas, Young Living e doTerra, com sede em Utah, que juntas ganham mais de US$ 1 bilhão em vendas anuais. A Griffin-Black não recorre a nenhuma delas para seus óleos, preferindo abastecer-se diretamente de produtores na Austrália, Marrocos e China.

“Nós temos características muito específicas para cada óleo que compramos e, se alguém não as adotar, não compramos”, diz ela. “O perfume dos óleos também é muito pessoal - pense nas diferenças entre muitos vinhos Cabernet."

Embora seja uma defensora apaixonado e quase ortodoxo dos óleos essenciais, ela não insiste em afirmar que eles potencialmente substituam a metade da medicina ocidental.

“Cada óleo tem propriedades únicas e tem sido usado há milhares de anos para funções medicinais e perfume” disse ela. “Nós não recomendamos o uso internamente, sem consulta a um profissional certificado. Há muitas alegações questionáveis ​​sendo feitas e informações imprecisas sobre o uso de certas condições médicas que acreditamos serem descuidadas e potencialmente perigosas.”

Griffin-Black parece estar bem ligada à família substituta que eles criaram. “Tem sido a jornada de uma vida toda criar uma empresa pela qual queríamos trabalhar, que infunde nossos valores no que fazemos e com quem o fazemos todos os dias”, disse ela.

Nem Black nem Griffin-Black voltaram a casar, embora ambos tenham estado em uma série de relacionamentos desde a separação. (Griffin-Black esteve com o mesmo parceiro por quase cinco anos.) Quando se pergunta se as coisas entre eles ficariam abaladas, caso alguém se case novamente, Griffin-Black tem uma pronta resposta.

 “Não acho que isso mudaria a dinâmica de forma negativa”, disse ela com confiança. “Somos conselheiros e confidentes um do outro - inclusive nos relacionamentos românticos. Somos um negócio em pacote no momento, porque temos filhos juntos e trabalhamos juntos."

Tradução de Claudia Bozzo