No Vale do Silício, trabalhar das 9h às 17h é coisa de perdedores

Dan Lyons/The New York Times - O Estado de S.Paulo

11/09/2017 | 07h02    

No aguerrido setor de pequenas empresas informais, não existe atividade mais sublime que começar uma empresa na qual, para se ter sucesso, é preciso estar disposto a abrir mão de tudo

Homem trabalha em computador; no Vale do Silício  pequenas empresas estão cultuando o “whorkalholism"

Homem trabalha em computador; no Vale do Silício  pequenas empresas estão cultuando o “whorkalholism" Foto: Robert Galbraith / Reuters

O Vale do Silício orgulha-se de “pensar diferente”. Faz sentido, pois, que enquanto muitas indústrias começam a dar mais atenção ao equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida, o Vale tome o caminho oposto, considerando o “whorkalholism”, obsessão pelo trabalho, uma desejável opção de vida. Está surgindo ali um aguerrido setor de pequenas empresas informais que rezam pelo evangelho da prosperidade e estão centradas na internet. Para esse grupo, não existe atividade mais sublime que começar uma empresa na qual, para se ter sucesso, é preciso estar disposto a abrir mão de tudo.

“Hustle” (algo como “agito”, a  palavra usada pelo pessoal tech para descrever esse estilo de vida “nerd-commando”, está por toda parte. Há camisetas e canecas estampadas com a temática hustle, trazendo slogans como “Sonhe, agite, lucre e repita” e “Todo mundo botando pra quebrar, agitando, trabalhando”. Você fazer um curso de oito semanas, num campo de treinamento, para aprender a lançar startups “hustle”. Pode ainda se inscrever no Hustle Con, um encontro de um dia em que hustlers bem-sucedidos compartilham seus segredos. O ingresso custa em torno de US$ 300, mas estiver disposto pode pagar US$ 2 mil para o setor VIP. O encontro deste ano,  em junho, teve 2.800 frequentadores, dos quais duas dezenas optaram pelo ingresso VIP.     

Para muitos, “hustle” é apenas um eufemismo para wokhahlolism. Gary Vaynerchuk, conhecido como Gary Vee, empreendedor e investidor em startups, que tem 1,5 milhão de seguidores no Twitter e é autor de uma penca de best-sellers com títulos como  “Crush It!” (“Arrebente!”), aconselha seus adeptos a trabalhar 18 horas por dia, todo dia, sem férias, sem folgas, sem TV. “Você quer ver a cor do dinheiro? Quer comprar seu jatinho?”, pergunta Gary Vee em um de seus discursos motivacionais. “Trabalhe. É assim que se chega lá.”

Vaynerchuk é também juiz do reality show  da Apple “Planeta dos Apps”, no qual  desenvolvedores de aplicativos competem por financiamentos de uma empresa de capital de risco. Um tuíte promocional recente do reality mostra um competidor trabalhando, sob a legenda “Raramente vejo meus filhos. É um risco que tenho de correr”. E vem conclusão: “Pelo grande prêmio, ele joga tudo tudo”.

Santo Deus! No comercial o cara está desenvolvendo um aplicativo que permite visualisar como fica uma mesa de café de um catálogo na sala do interessado. Acho isso ótimo, mas será mais importante que ver os filhos? (Após uma enxurrada de críticas no Twitter, a Apple retirou o comercial.) / Tradução de Roberto Muniz