Escolas de cursos livres sobrevivem à crise

Alessandro Lucchetti - Especial para o Estado

13/06/2017 | 07h04    

Tendência que começou a ganhar corpo há dez anos, escolas de cursos livres oferecem conteúdo diversificado e preenchem parte do vácuo deixado pelo ensino tradicional

School of Life

School of Life Foto: Diana Gabanyi/School of Life

Tarde de um sábado outonal na Vila Madalena. Na sala de um sobrado, jornalistas ouvem colegas que ministrarão, no mesmo mês, um curso sobre Jornalismo Colaborativo e Mídia Independente. A conversa tem argumentos molhados em cerveja, acompanhadas por uns minirrissoles. Cenas assim se repetem nesse mesmo bairro boêmio e em outros,  após ou durante aulas dos chamados cursos livres, um tipo de empreendimento que envolve alunos interessados em conteúdos por vezes bem específicos e empresários com contatos de professores antenados em tendências de comportamento e necessidades atuais.

A Casa do Saber, aberta em 2004, ganhou grande espaço na mídia, oferecendo conteúdos diversos. Com o tempo, proliferaram, em outras escolas, propostas semelhantes. A crise não interrompe o processo, pois é grande a necessidade por atualização profissional, mesmo (ou principalmente) em meio a alunos desempregados, assimo como é premente a necessidade de descoberta de formas de encaixe de profissionais num mercado de trabalho em rápida transformação.

"Nossa escola nasceu para colocar em xeque sistemas tradicionais e engessados de ensino. Queremos oferecer ensino de qualidade a preço acessível", diz Rafael Alberico Chaves, um dos quatro sócios da INCA, Escola de Inovação Coletiva.

Filho de um motorista da antiga CMTC, a Companhia Municipal de Transportes Coletivos,  e de uma dona de casa, Chaves viveu por muitos anos no Jardim Brasil, que já foi o bairro paulistano de procedência do maior número de internos da antiga Febem (Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor). Ele atribui grande importância à participação de  alunos de regiões periféricas nos cursos. "Fazemos uma aposta nas pessoas que mais necessitam de aprimoramento educacional. Além disso, elas podem oferecer uma contribuição muito grande aos grupos de alunos ao compartilhar sua experiência."

Na INCA, esses alunos podem obter bolsas que são essencialmente bancadas pelas mensalidades pagas pelos outros alunos. Por sinal, até mesmo a Casa do Saber, que tem um alunato de perfil mais elitizado, oferece bolsas. No ano passado, distribuiu 146.

Boa parte dos cursos da INCA funciona em salas de uma escola de dança que pertence a uma das sócias. A administração é tocada no interior de um espaço de coworking. Segundo Chaves, foram investidos R$ 12 mil no desenvolvimento de identidade visual, site e na contratação dos professores para os primeiros cursos. Ele estima que 70% tenham sido recuperados cinco meses após a abertura.

Mas o que são, afinal, os cursos livres?  Silvio Passarelli, diretor da Faculdade de Administração da FAAP, emprega uma definição simples. "Trata-se de cursos sem percentual obrigatório de frequência ministrados por professores que estão no mercado e são considerados notórios conhecedores em determinadas áreas, não necessariamente com títulos acadêmicos. Na prática, costumam ser monotemáticos, e esse tema é dissecado em algumas sessões."

Aula da INCA (Escola de Inovação Coletiva)

Aula da INCA (Escola de Inovação Coletiva) Foto: Rafael Alberico Chaves/INCA

A Casa do Saber, por exemplo, ofereceu, no 71º aniversário de Elis Regina, "Elis em Vinil". Julio Maria, jornalista do Estado e biógrafo de "Eliscóptero", contou histórias dos bastidores das principais gravações da Pimentinha. Em seguida, um DJ acionava um toca-discos, e o especialista chamava a atenção para detalhes de arranjos e recursos interpretativos, com uma boa dose de contextualização histórica.

"É um investimento pessoal. Muitas empresas dão cursos assim para seus empregados. É para enriquecer o ser humano", diz Mario Vitor Santos, diretor executivo e um dos oito sócios da Casa do Saber. Conhecer mais sobre os interesses que estão em jogo na guerra da Síria, ampliar o repertório sobre o cinema argentino ou ouvir o que o ex-ministro Renato Janine Ribeiro tem a falar sobre política: o cardápio da escola é extenso. No ano passado, foram oferecidos 230 cursos, crescimento enorme sobre a base do ano anterior (40). E quanto custa? O encontro presencial dura duas horas, com intervalo de dez minutos. Esse par de horas, caso presencial, custa R$ 180; online sai por R$ 190. Alguns cursos consistem num único encontro, como aquele ministrado por Janine Ribeiro, no ano passado, sobre os destinos do País na eventualidade da queda de Dilma Rousseff ou na hipótese de sua permanência.  

A Perestroika, também baseada na Vila Madalena, recebe cerca de 120 alunos por mês. Os valores dos cursos variam entre R$ 1,8 mil (mais curtos) e R$ 4,5 mil (mais longos, de três meses). 

Criada em Porto Alegre, com filial em São Paulo e em mais três capitais há dez anos, a Perestroika junta pessoas interessadas em assuntos específicos, segundo Mariah Polati, gestora da unidade paulistana. "Temos um formato informal e visões autorais de quem está trabalhando e vivenciando uma determinada área. Muita gente vem fazer os cursos em busca de contatos."

Power point. A Perestroika oferece, entre outros, cursos utilitários, como gestão de projetos e montagem de apresentações em power point e liderança. Não longe dali, na Vila Madalena, funciona a versão brasileira da School of Life, que atua sob licença da instituição londrina criada pelo filósofo Alain De Botton desde 2013.

"Posso dizer, com segurança, que praticamente todos os nossos cursos esgotam as vagas. Na pior das hipóteses, preenchemos 70% delas. As pessoas estão entendendo que desenvolver a inteligência emocional, a nossa proposta, não é algo supérfluo, mesmo num contexto de crise", diz a jornalista Diana Gabanyi, que foi assessora de imprensa do tenista Gustavo Kuerten por 15 anos e hoje atua como diretora executiva da escola.

Na School of Life, um curso com carga horária de 90 minutos custa R$ 130. Um conteúdo mais extenso, com duração de 5 dias, sai por R$ 3.250 (totalizando umas 35 horas). A INCA oferece oficinas, com duração de três ou quatro horas, por R$ 50, e cursos mais longos, com cinco encontros totalizando 32 horas, por R$ 600.

Balanços de algumas escolas de cursos livres apresentam números interessantes. A quantidade de alunos é satisfatória, e alguns deles são "consumidores pesados" dos produtos oferecidos nessas salas de aula. É o caso do relações públicas Matheus Furlanetto, que estima ter já participado de 200 cursos. Frequentou School of Life, Casa do Saber, Centro de Pesquisa e Formação do SESC, Centro Universitário Maria Antônia e MAM, entre outros.

Gabriel Chalita, integrante do Conselho Diretor da Casa do Saber e um dos sócios do empreendimento

Gabriel Chalita, integrante do Conselho Diretor da Casa do Saber e um dos sócios do empreendimento Foto: Alex Silva/Estadão

"Sou bastante curioso. Não faço esses cursos para turbinar minha carreira, mas indiretamente posso colher esse benefício", diz Furlanetto. Induzido pelas reflexões provocadas sobretudo por intensivos ministrados pelo professor David Baker na School of Life, Furlanetto concedeu a si mesmo um período sabático, ao longo do qual, é evidente, haverá de se inscrever em mais cursos. "Mudei minhas prioridades. Antes trabalhava naquele velho esquema de oito horas diárias. Agora quero uma estrutura mais móvel, que me permita tocar jobs na minha casa. Desejo também viajar enquanto trabalho e ir à Bienal de Veneza".

Outra adepta da School of Life, Marina Marinangelo situa os cursos "entre conversas de bar e cursos formais de filosofia". E explica: "Papo de bar não tem conceito. Já um curso formal de filosofia não tem aplicabilidade. A School of Life pega a abordagem de um filósofo sobre determinado tema e direciona uma conversa em torno de um determinado eixo. O contexto é muito rico. Os cursos não são baratos, mas eles nos levam a refletir sobre o consumo consciente, por exemplo, e aí passarei a gastar melhor. Por esse viés, é o caso de um curso que se paga. Eles nos ajudam também a melhorar nossas relações, a pensar, a nos deixar com dúvidas e até a saber lidar com a morte. São temas que servem a qualquer público. Não importa o seu momento, são reflexões que reverberam".

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