Empresa aposta em inclusão de cadeirantes

Marcos Burghi especial para - O Estado de S.Paulo

20/12/2017 | 13h48   

Gêmeos criaram dispositivo elétrico que transforma cadeira de rodas em triciclo

Júlio e Lúcio Oliveto mudaram foco de negócio para desenvolver um produto pioneiro. Foto: Rodolfo Goud

Júlio e Lúcio Oliveto mudaram foco de negócio para desenvolver um produto pioneiro. Foto: Rodolfo Goud Foto: Rodolfo Goud

“Quando fazemos algo que amamos o resultado é muito melhor.” A frase, dita pelo engenheiro e empresário Júlio Oliveto, expõe a principal razão pela qual ele e o irmão gêmeo, o administrador Lúcio Oliveto, decidiram mudar o foco de seu negócio. Em 2015, eles fundaram a Livre Montagem de Produtos Assistidos, com o objetivo de vender o Kit Livre, um dispositivo elétrico com capacidade de transformar cadeiras de rodas em triciclos.

A ideia surgiu em 2009, quando ainda à frente de sua locadora de máquinas industriais, aberta em 2002, em São José dos Campos, cidade natal dos irmãos, Júlio e Lúcio começaram a desenvolver a ideia. A patente foi obtida em 2011, e, dois anos depois, eles iniciaram uma jornada por feiras e exposições em busca de parcerias para fabricação e comercialização da novidade. 

Segundo Júlio Oliveto, diretor de Inovação da empresa, embora a recepção do produto fosse positiva entre as pessoas, a prospecção de parceiros foi em vão. “Decidimos então nos capacitar na elaboração de um plano de negócios e da apresentação do kit para tentar conseguir um financiamento”, conta.

Em 2014, a insistência dos Oliveto foi recompensada: o Kit Livre ganhou R$ 100 mil em um concurso promovido pelo banco Santander, uma iniciativa que premia universitários com ideias inovadoras. Com dinheiro, deram início à produção e comercialização do produto, iniciada em 2015. “Aumentamos a autoestima e a confiança dos cadeirantes”, diz Júlio.

Embora o produto possa ser personalizado conforme as necessidades de cada usuário, os modelos mais vendidos são o Kit Livre, de uso urbano, com preços entre R$ 3.990 e R$ 7.990. O Kit Radical, de caráter mais esportivo e indicado para cadeirantes interessados em trilhas, skate ou cross, custa R$ 9.990. “Os valores variam conforme a potência do equipamento”, explica Júlio. Segundo ele, são vendidas cerca de 30 unidades por mês, a maioria delas no modelo urbano. 

Distribuição. Apesar de a empresa contar com parcerias para distribuição em pontos do Nordeste, do Sudeste e do Sul do País, Júlio enfatiza ter como prioridade as vendas diretas. “Buscamos estar mais próximos do nosso público, principalmente para atendimento no pós-venda, em aspectos como revisão, por exemplo. Além disso, queremos os clientes identificados com o principal objetivo de nosso empreendimento: melhorar a qualidade de vida dos cadeirantes”, diz. 

A projeção da Livre é fechar o ano com faturamento de R$ 3 milhões. Oliveto diz que a empresa tenta driblar a crise econômica com a divulgação do produto em redes sociais. “Também planejamos abrir lojas em 2018, mas queremos crescer de forma estruturada”, diz. 

Com sede em São José dos Campos, a empresa conta com 25 funcionários com tarefas de produção, distribuição e comercialização. O contingente ultrapassa o dobro de 2016, quando a equipe tinha 12 pessoas, e aumentou cinco vezes em relação ao ano de 2015. 

Aos futuros empreendedores com trajetórias semelhantes, Júlio sugere atuar em áreas com as quais se identifiquem, caso contrário a menor das barreiras no caminho parecerá intransponível. “Durante quase 15 anos estivemos em um negócio próspero, mas com o qual não nos identificávamos. Hoje, fazemos algo que amamos, cuja finalidade levamos para nossas vidas”, finaliza.

Para tirar uma ideia do papel

Tenha clareza. Saber qual é o seu objetivo como empreendedor ajuda na hora de fazer mudanças no negócio. Antes de criar a Livre, os irmãos Oliveto eram donos de uma locadora de máquinas industriais. A mudança de foco do empreendimento foi tranquila para os sócios justamente por terem propósitos alinhados.

Patentear uma invenção. O desenvolvimento de uma ideia pioneira traz muitos desafios. No Brasil existe um órgão que regula o registro de marcas e patentes, o Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (Inpi). O registro oficial de uma invenção só é válido se for feito pelo instituto. Essa é a forma mais segura para a empresa ficar protegida de plágios e cópias.

Viabilizar as vendas. Aprenda a elaborar um plano de negócios e uma apresentação completa de seu produto. Ter a patente da invenção não garante a sua consolidação e entrada imediata no mercado. É preciso apresentar a novidade a investidores.

Pós-venda. Acessibilidade e agilidade na solução de problemas ou manutenção do produto fazem a diferença. Os irmãos Oliveto optam por investir no atendimento e distribuição dos kits.