Criador de túnel de vento de paraquedismo indoor busca voos mais altos

Alessandro Lucchetti - Especial para o Estadão

15/06/2017 | 07h03    

Engenheiro aeronáutico espera ganhar escala com segundo túnel de vento, que está em construção em Ferraz de Vasconcelos, e já pensa em criar uma franquia

Engenheiro aeronáutico criou o Wind up, túnel de vento para paraquedismo indoor

Engenheiro aeronáutico criou o Wind up, túnel de vento para paraquedismo indoor Foto: Luciano Tanz/Wind up

Em Ferraz de Vasconcelos, cidade que cresceu fabricando lixas e é o berço da uva Itália no Brasil, constrói-se o segundo túnel de vento Wind up Indoor Skydiving. O nome em inglês esconde tecnologia inteiramente nacional, desenvolvida por Luciano Tanz, engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), e sua equipe. O primeiro túnel de vento, com 17 metros de altura e turbinas que proporcionam deslocamento de ar a 250km/h, está instalado desde 2013 no Shopping D, na zona norte de São Paulo, sobre uma carreta. Trata-se da forma mais barata e fácil de se ter sensação similar à de um salto com paraquedas.

O projeto, que alçou voo com recursos do CNPq, Finep, Fapesp e do pai de Tanz, insere-num plano de negócios que tenderá à lucratividade com ganho de escala. Entre as ambições do engenheiro consta a criação de um sistema para franqueamento do negócio. Sim, essa prática de simular salto de paraquedas está crescendo. Prova disso é a instalação, em abril do ano passado, nas proximidades da outra marginal paulistana, a do Rio Pinheiros, de um dos 37 túneis de vento que a norte-americana iFly espalhou pelo mundo. Há um outro em Brasília.

Por incrível que possa parecer, os melhores meses de faturamento do Wind up ocorreram já com a presença de concorrência na cidade e crise severa no País: julho do ano passado e janeiro deste ano. "Pelo grau de inovação e apelo do meu negócio, gostaria de estar melhor, é claro, mas considero um grande mérito ter esse desempenho neste ramo de atividade, que é lazer e esporte, e considerado supérfluo neste cenário econômico", diz o engenheiro. Para aumentar o número de horas de voo vendidas, Tanz fez uso de estratégias nas quais não apostava nos primeiros anos do empreendimento, como divulgação em rádio e promoções mais agressivas. O pacote "Experimenta", que consiste num voo, custa agora R$ 40 para crianças de cinco a 11 anos de idade. Em maio de 2013, quando a atração estava instalada no shopping Tamboré, o voo mais barato saía por R$ 95.  

Os pássaros. A chegada a São Paulo da iFly não chega a tirar o sono de Tanz. A concorrência mira em "pássaros" diferentes. "Eles têm um conceito diferente, é mais chique, voltado para a classe A. É também uma instalação fixa, num prédio." 

Tanz elogia seu parceiro na empreitada, o Shopping D. Seu túnel de vento é visível por quem trafega de metrô, entre as estações Armênia e Portuguesa-Tietê, e por quem passa de carro pela avenida Cruzeiro do Sul. O empresário diz que a administração lhe cobra um valor "simbólico" pelo aluguel do espaço ocupado no estacionamento. O túnel de vento atrai famílias de diversos bairros, e boa parte delas haverá de circular pelos corredores do shopping e pela área de alimentação.

Segundo o engenheiro, a experiência no mundo dos negócios lhe mostrou a ausência, no Brasil, de uma cultura voltada para a inovação. "As dificuldades de financiamento são muito grandes. Todos os projetos de inovação embutem alto risco. Trata-se de um negócio que nunca foi feito antes. O dinheiro oferecido pelas linhas de financiamento de pesquisa acaba e o desenvolvimento do projeto fica muito lento", desabafa Tanz. Ao longo de sua trajetória, no entanto, o empresário observou o desenvolvimento de uma estrutura favorável em outro campo. "O Brasil progrediu na criação de software, em tecnologia de informação e em incubadoras".

Túnel do Wind up indoor skydiving tem 17 metros de altura

Túnel do Wind up indoor skydiving tem 17 metros de altura Foto: Luciano Tanz/Wind up

Computando também o custo de sua própria mão de obra, Tanz calcula que seu negócio já tenha sido irrigado por um capital de R$ 8 milhões. O empresário emprega 12 funcionários e barateia o treinamento de paraquedistas, que ainda respondem por 50% de seu faturamento - essa dependência chegou a ser de quatro quintos. "A gente proporciona até uma elevação do nível de segurança dos saltos de paraquedas. No túnel, o paraquedista tem a oportunidade de treinar e de ser filmado e observado por um instrutor, que corrige seus erros antes de ele ir fazer um salto de verdade".

Curiosamente, Tanz, que costuma se exercitar bastante em seu próprio túnel de vento, jamais saltou de um avião. Apesar de gostar de desafios, ele tem um bem mais exigente pela frente. "Consegui dinheiro para metade do equipamento necessário para construção do segundo túnel. O empresário, no Brasil, tem que rebolar bastante para conseguir resultados", conclui.