Cresce a produção de cerveja artesanal

Letícia Ginak especial para - O Estado de S.Paulo

20/12/2017 | 11h51   

Com demanda alta, número de microcervejarias com registro aumentou 10% no último semestre no País, segundo Abracerva; maioria das fábricas fica no Sul e Sudeste, mas ações locais têm feito o setor crescer em todas as regiões

Luiza Tolosa, socia-fundadora da Cervejaria Dádiva, localizada em Várzea Paulista, SP. Foto: Rafael Arbex/ Estadão 

Luiza Tolosa, socia-fundadora da Cervejaria Dádiva, localizada em Várzea Paulista, SP. Foto: Rafael Arbex/ Estadão  Foto: Rafael Arbex

O brasileiro se encantou de vez pelas cervejas artesanais. E os números comprovam isso. Entre junho a dezembro deste ano, o setor de microcervejarias com registro no Ministério da Agricultura e Abastecimento (MAPA) cresceu 10%, atingindo um total de 675 fábricas no País, de acordo com a Associação Brasileira das Cervejas Artesanais (Abracerva).

“É um setor impulsionado pela demanda, há um aumento no surgimento de novos consumidores de cerveja artesanal ”, afirma o presidente da Abracerva, Carlo Lapolli.  

A maioria das microcervejarias ainda está concentrada nas regiões Sul e Sudeste, mas ações como o movimento “beba local” fazem com que o setor cresça em todas as regiões do Brasil. “Hoje vemos muitos projetos de cervejarias artesanais com foco regional, com o objetivo de atender o consumidor local. Acredito que isso vai impulsionar ainda mais o crescimento desse mercado", afirma Lapolli. 

:: Difusão da cultura cervejeira fomenta o mercado :: 

Trajetória. Os primeiros sinais do surgimento de um mercado nacional de cervejas artesanais apareceram há, pelo menos, 10 anos. “Entre 2005 e 2006 o segmento começava timidamente, pois as disposições econômicas do País dificultavam a vida de empreendedores dessa área”, afirma Cilene Saorin, diretora de educação da Doemens Akademie na América Latina, referência internacional na formação de profissionais da área. 

Ainda de acordo com Cilene, o positivo cenário econômico nacional entre 2009 e 2012 alavancou o setor. “Nesta época surgiram investimentos não só na indústria, mas também na área de comercialização e distribuição, como bares, restaurantes e empórios."

Além do econômico, outros dois aspectos selaram de vez o amadurecimento desse nicho: o demográfico e o cultural. Para a especialista, o envelhecimento da população brasileira contribui positivamente para o consumo das artesanais. 

“Quando falamos de uma massa crítica cada vez maior em uma faixa entre 40 anos ou mais, falamos dessa transformação de perfil e escolha de consumo. Porque negócios que lidam com bebida alcoólica pedem maturidade de consumo e dinheiro no bolso." 

Sobre a propagação da cultura cervejeira, a tecnologia só veio a contribuir. “A revolução digital deu a chance de cada vez mais pessoas ganharem contato com o tema. Elas sabem mais sobre as matérias-primas, os estilos e as possibilidades de integração com a gastronomia", diz especialista. 

Na fábrica. Com quatro anos de história, a Cervejaria Dádiva, localizada em Várzea Paulista, São Paulo, surfa na onda da ascensão do mercado. De início, a entrada no segmento foi uma aposta. “Quis empreender e acabei entrando pela oportunidade, pelo mercado que eu achei que poderia se tornar”, conta a sócia-fundadora Luiza Tolosa. 

Com 30 funcionários, a Dádiva tem uma produção própria mensal que gira entre 15 mil e 20 mil litros por mês. São mais de 30 rótulos lançados entre clássicos, sazonais, limitados e colaborativos.  

Além disso, Luiza aprimorou o negócio fabricando rótulos de marcas que não têm fábrica, as chamadas “cervejarias ciganas”. “Em poucos meses já começamos a receber os primeiros ciganos. Faz parte do negócio”, explica Luiza. A Dádiva produz o portfólio de três cervejarias, fabricando até 100 mil litros por mês. 

Há seis meses, Luiza criou a Distribuidora Dádiva, ampliando as possibilidades da marca. O braço comercial distribui os rótulos autorais, de cervejarias ciganas, internacionais trazidos por uma importadora e ainda duas marcas de gim. 

Luiza tem uma visão otimista do mercado e não vê espaço para preocupações. “Crescemos mesmo com a crise e o momento político complicado. Imagine o potencial que temos. Vi nos últimos anos a aparição grande dos ciganos, importante para o mercado e para a pluralidade de marca. Quanto mais a gente conseguir conversar com públicos diferentes, melhor para o segmento como um todo.” 

Microcervejaria poderá aderir ao Simples em 2018. Em 2018, Herbert Pires Filho vai abrir as portas da microcervejaria Mahy, em Manaus, Amazonas. Depois de 22 anos no ramo automobilístico e após ganhar vários prêmios pelas cervejas produzidas de forma caseira, ele resolveu investir. “Começou como brincadeira e ficou sério. Registramos dois estilos de cervejas, mas a intenção é aumentar para cinco." Pires tem mais dois sócios e estima que o investimento foi cerca de R$ 1,6 milhão.

A fábrica da Mahy tem capacidade inicial de produção de 16 mil litros e possibilidade de expansão para até 40 mil litros por mês. “Queremos fazer distribuição pelo menos na região Norte.” 

Não foi apenas a paixão pela cerveja que motivou Pires a investir no negócio. Em 2018, as microcervejarias poderão entrar no Simples Nacional e obter redução da carga tributária de impostos federais. Para entrar no Simples, elas devem ter um faturamento de até R$ 4,8 milhões por ano.

“O Simples encoraja a entrar no mercado, seja na produção, comercialização e serviços diretos e indiretos, como e-commerce”, diz Cilene. Pires endossa a afirmação da diretora. “A mudança da lei nos motivou a investir.”